AGOSTO, MÊS VOCACIONAL.



Construir uma cultura vocacional em nossas comunidades

“Toda comunidade é chamada a ser berço, casa e caminho de vocação”


O mês de agosto, chega até nós, com um verdadeiro movimento sinodal em toda a Igreja do Brasil que é a preparação do 5º Congresso Vocacional. Também com um convite e uma interpelação especial:  olhar para a vida como a vocação por excelência. Toda pessoa é uma vocação. Durante este mês, somos chamadas e porque não dizer, desafiadas a recordar que toda vida é vocação, que cada pessoa é chamada por Deus desde o ventre materno. A nossa tarefa e missão é ajudar o ser humano a descobrir, acolher e responder ao chamado recebido.

Em um mundo no qual adolescentes e jovens convivem diariamente com a dor profunda de sentido para suas vidas, a reflexão vocacional não pode ficar restrita às celebrações, aos cartazes, às orações pelas vocações ou ao convite para que alguns jovens ingressem na vida consagrada. O grande desafio que se apresenta à Igreja e a nós, como Missionárias do Santo Nome de Maria, é bem mais profundo: construir uma verdadeira cultura vocacional.

A cultura vocacional nasce quando uma comunidade inteira aprende a olhar a vida como dom, chamado, resposta e missão, por isso é indispensável que a cultura vocacional seja um valor inegociável para os batizados e de modo profético para nós, Vida Religiosa Consagrada. Precisamos buscar respostas para algumas perguntas:

“Como fazer de nossas comunidades lugares onde os adolescentes e jovens possa perceber que Deus os chama?”

“Como fazer de nossas comunidades espaços onde a vocação seja vivida, testemunhada, acompanhada e celebrada?”

A narrativa de 1 Samuel 3,1-10 é uma das passagens bíblicas mais bonitas para refletirmos sobre a cultura vocacional, porque apresenta não somente a vocação de Samuel, mas também a importância de uma comunidade capaz de perceber, acolher, acompanhar e ajudar a discernir os sinais de Deus na vida de uma pessoa. “Fala, Senhor, que teu servo escuta”. 

Uma comunidade que ajuda a escutar 

Samuel ainda é jovem. Ele está no templo, junto de Eli, ainda não reconhece a voz do Senhor. A experiência vocacional começa justamente nesse lugar de busca, inquietação e abertura. Samuel escuta algo que não compreende. Levanta-se, vai até Eli e pergunta: “Tu me chamaste?”

Aqui encontramos um aspecto fundamental da cultura vocacional: Deus chama, mas muitas vezes o jovem precisa de alguém que o ajude a reconhecer que aquilo que está acontecendo dentro dele pode ser uma experiência de chamado.

Samuel não sabia interpretar sua inquietação. Eli, inicialmente, também não percebe. Três vezes Samuel se levanta. Três vezes procura Eli. Somente então Eli compreende: “É o Senhor que está chamando o menino.” Essa percepção de Eli é muito significativa. Ele consegue olhar para além do comportamento imediato de Samuel. Poderia simplesmente dizer: “Volta a dormir, você está imaginando coisas”. Poderia ignorar sua inquietação. Mas Eli começa a discernir a experiência do jovem.  Eli tem sensibilidade para perceber a inquietude do jovem.

Uma cultura vocacional começa quando deixamos de olhar os jovens apenas a partir de suas atitudes externas e aprendemos a perguntar:
O que está acontecendo no coração deste jovem?
Que inquietação ele está vivendo?
Que perguntas estão nascendo nele? 
Que sonhos, desejos e buscas podem ser sinais de Deus?

Samuel não chega dizendo: “Acredito que Deus está me chamando”. Ele simplesmente está inquieto. Muitas vezes, os jovens também não sabem nomear aquilo que sentem. Apresentam perguntas, crises, desejos de mudança, busca de sentido, necessidade de pertença, desejo de servir, indignação diante das injustiças ou uma profunda sede espiritual.

Uma comunidade vocacionalizada não trata essas inquietações como problemas a serem eliminados. Aprende a escutá-las como possíveis lugares de manifestação de Deus. Eli nos ensina que acompanhar uma vocação exige olhar contemplativo: olhar a pessoa com atenção, sem pressa de rotulá-la ou enquadrá-la.

Eli nos ensina a acompanhar sem controlar

Existe uma beleza especial na postura de Eli: ele ajuda Samuel a encontrar seu caminho, mas não caminha no lugar dele. Isso é essencial no acompanhamento dos jovens. Acompanhar não significa controlar. Acompanhar não significa decidir pelo outro. Acompanhar não significa oferecer respostas prontas. Acompanhar é caminhar ao lado, fazer perguntas, ajudar a pessoa a interpretar suas experiências, reconhecer seus dons, perceber seus desejos mais profundos, confrontar suas escolhas com o Evangelho e ajudá-la a discernir.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo excesso de vozes. O jovem recebe diariamente inúmeras mensagens dizendo quem deve ser, o que deve desejar, aonde deve chegar e o que deve possuir.  Penso que uma das grandes tarefas do SAV (Serviço de Animação Vocacional) seja ensinar a escutar.

  • Escutar a Palavra.
  • Escutar o próprio coração.
  • Escutar os outros.
  • Escutar a realidade.
  • Escutar os pobres.
  • Escutar os gritos da criação.
  • Escutar os acontecimentos da própria vida.

Em  meio a tantas vozes, aprender a reconhecer a voz de Deus. Samuel precisou aprender a distinguir a voz do Senhor entre tantas outras vozes. Nossos jovens precisam de pessoas como Eli: testemunhas maduras que os ajudem a discernir a voz de Deus no meio de suas inquietações.

A vocação cristã nasce quando a vida deixa de ser compreendida somente a partir de “o que eu quero para mim” e começa a ser iluminada pela pergunta: “Senhor, a quem queres que eu sirva com os dons que me deste?”

A cultura vocacional precisa ajudar os jovens a passar de uma lógica de autorrealização para uma lógica de doação. Não significa abandonar sonhos, projetos ou realização pessoal. Significa descobrir que a verdadeira realização acontece quando os dons recebidos se transformam em serviço, amor e compromisso com o outro.

“Escutar deve ser o coração da cultura vocacional. Esta narrativa do chamado de Samuel, nos apresenta 4 atitudes indispensáveis no itinerário de uma verdadeira cultura vocacional; Perceber → Acolher → Acompanhar → Discernir.

Eli percebe a inquietação de Samuel. Eli acolhe aquilo que está acontecendo.
Eli acompanha o jovem em sua busca. Eli o ajuda a discernir que é Deus quem o chama.

Aqui encontramos um verdadeiro itinerário para nossas comunidades, pois uma comunidade vocacionalizada é aquela que consegue dizer ao jovem:

“Eu vejo você.” “Eu escuto você.”
“Eu acredito que sua vida tem um chamado.”
“Não precisamos ter todas as respostas agora.”

Não existe cultura vocacional sem cultura do acolhimento. Muitas pessoas chegam às nossas comunidades carregando dúvidas, feridas, sonhos, perguntas e desejos de encontrar um lugar onde possam ser elas mesmas. Precisamos perguntar: Quando alguém chega à nossa comunidade, o que encontra?

Encontra portas abertas? Encontra escuta? Encontra alegria? Encontra simplicidade? Encontra mulheres que sabem acolher sem julgar? Encontra espaço para conversar? Encontra testemunhas? Ou encontra uma estrutura tão fechada que rapidamente percebe que não há lugar para ela?

A cultura vocacional não oferece respostas prontas. Ela ajuda a pessoa a fazer perguntas profundas: Quem sou eu? Para que Deus me criou? Quais dons recebi? Onde minha vida pode gerar mais vida? Quem precisa de mim? Onde meu coração encontra maior sentido? O que Deus está fazendo nascer dentro de mim?

A vocação nasce muitas vezes de uma experiência de sentido. Ajudar os jovens a descobrir que a grande pergunta da vida não é: “O que eu quero fazer da minha vida?” Mas:  “Senhor, o que queres fazer da minha vida?”

O 5º Congresso Vocacional do Brasil, que vai acontecer em setembro de 2026, terá como tema “Comunidades Vocacionais: Encontro, Testemunho e Missão” e o lema “Perseverantes e bem unidos, partiam o pão pelas casas” (At 2,46). Em seu texto base, o Congresso propõe uma mudança muito importante: a vocação não pode ser tratada apenas como uma “pastoral específica”, confiada ao SAV ou a algumas pessoas, mas precisa tornar-se uma dimensão transversal de toda a vida eclesial.  O desafio da Igreja e da Vida Religiosa é passar de comunidades que “fazem pastoral vocacional” para comunidades que vivem uma verdadeira cultura vocacional.

Uma comunidade vocacionalizada é aquela que ajuda a pessoa a encontrar, escutar, discernir, responder e permanecer fiel ao chamado de Deus. Por isso, o 5º Congresso nos coloca diante de uma pergunta muito maior do que “como aumentar as vocações?”: “Que Igreja precisamos ser para que uma pessoa consiga ouvir a voz de Deus em meio ao mundo de hoje?”

É necessário ensinar nossas comunidades a escutar Deus, escutar a Palavra, escutar a realidade e escutar as pessoas. De maneira muito especial precisamos ser espaços de escuta para os jovens, eles precisam encontrar adultos capazes de ouvi-los sem julgá-los, orientar suas escolhas sem oferecer respostas prontas.  

Neste sentido o caminho preparatório do Congresso destaca a necessidade de escuta, acompanhamento, confiança e sensibilidade.  O 5º Congresso aponta para uma compreensão muito mais ampla: toda a comunidade é responsável por cultivar vocações, porque toda pessoa batizada possui uma vocação e é chamada à santidade, à missão e ao serviço.

Em sintonia e comunhão sinodal com todo o movimento da igreja do Brasil por meio dos seus regionais, dioceses e prelazias queremos nos unir a esta grande e bela ciranda na construção de uma verdadeira cultura vocacional. Cada Irmã missionaria do santo nome de Maria onde quer que esteja vivendo a sua missão deve ser um portal importante no cultivo da cultura vocacional.


Irmã Maria Couto -

Missionária do Santo Nome de Maria

Em missão em Manaus-Amazonas.

(Referências bibliográficas para construção

do texto: Bíblia Pastoral; Texto

Base do 5º Congresso Vocacional).


VEJA OUTRAS NOTÍCIAS AQUI DO SITE